“(Des)Condução”

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Breeders – “Crash”

As-Salaam Alaykum, caros leitores!

Para primeira crónica optei por uma temática mais leve, que pudesse facilmente arrancar uma ou outra gargalhada, e que constituísse uma informação útil para recém-chegados aos Emirados Árabes Unidos.

E o tema escolhido foi…. (RRRRFFFFFF…. PXXXXXXX!!!) A condução!

Quanto mais ando por estas bandas, mais reflicto sobre o comportamento humano na estrada. Em Abu Dhabi e Dubai – e se eu inferir este comportamento ao resto dos Emirados, penso que não estarei a ser injusto – assiste-se a uma condução, e utilizando um eufemismo, verdadeiramente selvagem.

A saber e sem ser demasiado exaustivo:

* Piscas não existem;

* As buzinas são uma constante, como se tivessem uma espécie de ligação directa à correia do carro, de maneira a que cada rotação desse origem, como se de uma fatalidade se tratasse, a várias buzinadelas sendo inevitável e arbitrário o seu uso;

* Os solavancos, mesmo em linha recta, sem qualquer obstáculo pela frente e com mudanças automáticas, são algo a que um ocidental – mesmo alguém familiarizado com as lombas que povoam Oeiras, ao pára-arranca da IC-19, ou mesmo aos percalços de uma passagem pelo nó de Pina Manique – tem invariavelmente que se habituar. Este facto só não é agravado porque as estradas deste país são quase todas rectas, planas e como 3/4 faixas. Prefiro não pensar numa IP-5 por aqui…

* Carros estacionados em 2ª fila são um dado quase adquirido. O que me espanta realmente neste comportamento é que quem mais faz isto, fá-lo no próprio bairro, isto é, de um dia para o outro. E quem está na 1ª fila, digamos: Não estivesse! Mas não é tudo tão deixado ao acaso. Existe uma “táctica” que consiste em alternar os carros, isto é, cada carro fica no meio do que está ao seu lado. Para os mais cépticos, ainda há esperança! Está aqui um embrião de civismo a desenvolver-se…

* Para estes meninos, as passadeiras são consideradas passadeiras vermelhas, ou seja, são para avançar como se um Óscar estivesse à espera do outro lado e só se tivesse 10 segundos para o alcançar. As passadeiras nesta cidade, e quiçá, neste país, têm um objectivo meramente decorativo (contemplativo, no caso dos pedestres), só para dar uma ideia de que existe respeito, uma espécie de pacto de não-agressão entre os condutores e os pedestres. Errado!

Ao constatar estes factos, pus-me a pensar – o que já de si é grave – nestas questãos automobílisticas e culturais. Cheguei a algumas conclusões, ainda que talvez um pouco La Palicianas, que vou passar a (de)escrever:

A condução é um barómetro da personalidade de um país. Ainda não viajei tanto quanto queria, mas entre o senso-comum e o empirismo, já reparei numas coisas. O primeiro sintoma prende-se com o imediatismo, o recurso automático e sistemático à buzina.

Exemplificando, e indo directamente aos extremos, numa semana que estive em Amesterdão só me lembro de ter ouvido uma vez uma buzina e foi por causa de um devaneio meu numa bicicleta, isto é, foi plenamente justificado. Voltando a Abu Dhabi, posso dizer que num mês de estadia já começo a ganhar umas defesas, uma espécie de firewall aplicada aos ouvidos que faz com que ouça este ruído de fundo pincelado a buzinas, sem me irritar (demasiado). Houve inclusivamente uma manhã (na segunda semana aqui, salvo erro) em que cheguei a cronometrar o tempo que passava sem ouvir uma buzinadela. E lá fiquei 10/15 minutos, enquanto ganhava coragem para me levantar, de janela entreaberta a contar segundos mentalmente. O resultado máximo foi de 36 segundos com o horizonte sonoro imaculado de buzinas. E não estou numa avenida principal, nem na proximidade de uma rotunda (uma espécie de oásis civilizacional num deserto de valores e de jeitinho ao volante), coisa quase inexistente nestas paragens, embora no asfalto tudo se passe num enorme Marquês de Pombal multiplicado ao expoente da inconsciência.

Outro indicador é o grau de educação. apresentação, e por que não, literário dos taxistas.

Em Portugal existe um estigma negativo em relação aos taxistas, algumas vezes justificado, mas nem sempre. Já conheci vários muito afáveis – a maioria, atrevo-me a dizer – e com conversas bastante interessantes, mas é um facto que o mais erudito que lêem (pelo menos à luz do dia) são os jornais desportivos.

Já em Espanha, mais propriamente em Vigo, Galiza, lembro-me de ver dois a ler livros com um número considerável de caracteres.

Em Amesterdão, rebenta a bolha! Uns senhores. Até gravata têm. (Não que seja propriamente uma garantia de credibilidade, mas quem já os viu, decerto não me tira a razão).

No que diz respeito aos Emirados, estão num 1º estado de evolução. Uma espécie de Homo Taxapiens.

Para quem não conhece, existem 3 tipos de táxis por aqui:

1) Os brancos e amarelos “guiados” por autóctones (embora haja versões contraditórias e poucos consensos quanto à nacionalidade deles): mais baratos, é certo, mas os mais selvagens e digamos, nabos.

2) Depois existem os cinzentos, guiados por emigrantes indianos,nepaleses,paquistaneses, etc. Ironicamente (ou não) mais apresentáveis, alguns com mudanças manuais (!) e que proporcionam viagens bastante mais calmas e mais didácticas, ainda que haja sempre um risco latente por causa dos outros condutores. Costumam ser mais educados e comunicativos, e, por que não  dizê-lo, mais asseados, e, ao contrário dos primeiros que referi, não se costumam dar ao luxo de ignorar os potenciais clientes que aparentam ir para zonas da cidade (como a praia, por exemplo) que lhes convêm menos devido ao trânsito, longevidade, ou, simplesmente, porque não estão para isso.

3) O terceiro, e último, tipo de taxista é o não oficial, e, para os mais curiosos, é muito fácil de encontrar à frente do Marina Mall e são, simplesmente, taxistas à paisana, isto é, sem licença, mas que fazem o serviço pelo triplo do preço, se for mal negociado. 😛 Só andei uma vez neste, para evitar uma boa hora na fila para os táxis (oficiais) com alguns camaradas e fiz um amigo indiano. Um abraço senhor Mohammed Salim!

Um parêntesis:

(Para espalharem charme, ou simplesmente para criarem uma ponte de comunicação entre vocês, caros leitores, e um indiano residente num país árabe, como é o caso, basta perguntarem, depois de ele vos ter feito um favor – “It’s shuckran or shuckrian my friend?” – Se for indiano, responderá – “Oh, Oh! – com um sorriso rasgadíssimo – shuckrian, yes!” – com sotaque à Apu dos Simpsons. É engraçado como um “i” a mais numa palavra pode baixar a barreira social, e juntar duas pessoas de cantos do mundo tão díspares numa dimensão universal, acima de qualquer bolha Actimel. Parece tudo tão simples… E é, de facto…)

P.S. » Aos que leram este post até ao final, o meu Obrigado! e os meus Parabéns! E, desde já, peço desculpa pela extensão do mesmo, mas não quero deixar nada por dizer. Ao longo dos tempos, e à medida que vou tendo mais material (fotos, vídeos, ficheiros áudio) vou actualizando os posts e torná-los mais multimédia. Está dependente de uns updates logísticos, mas está prometido.

Obrigado pela correcção Teresa. Está feita a Errata. 😉

Até ao próximo,

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~ por pensaventosnodeserto em Outubro 8, 2008.

5 Respostas to ““(Des)Condução””

  1. Parabéns, axo q conseguiste retratra na perfeição a (des)condução das arábias… LOL e adorei a classificação dos tipos…
    Já agora, para conhecimento, SHUKRAN!!
    Bjocas

  2. Um granda beijinho vitó. Um dia destes tens-me aí a bater-te à porta.
    abraço musculado.
    David

  3. Muito bem enfatizada este belo tema aqui das arabias… De facto os taxistas por cá são uma “tribo” mesmo a parte e daria um belo objecto de estudo para quem estiver a fazer um mestrado nas areas sociais… Aqui fica a ideia… 🙂

    Bem como o vitor está aqui ao meu lado, não vou dizer mal nem dele, nem do blog, nem do post… (por agora) he he…

    Tou no gozo, tá muito fixe e que venha o proximo!!!

    Já agora aproveito o “tempo de antena”, visitem tambem o meu blog para uma visão mais diaria e menos epica… http://www.alramalahabudhabi.com!!! VISITEM… 🙂

    beijos e abraços do Al Ramalah

    João Pedro Venceslau

  4. LOL, bem parece q o IC19 é menino perto disso! :S

  5. Tenho de confessar que eu própria já tinha ponderado que a condução mostra também um pouco da personalidade dos povos. Lá para as Eslovénias as únicas buzinas que se ouviam eram de bicicletas 🙂 principalmente quando algum trauseante mais desatento vagueava pelas ciclovias. (eu?) Já os condutores… eram meio malucos. (talvez fosse das canecas!! de vodka bebidas?)

    E adorava aqueles sinais, no centro de Ljubljana, que diziam viena em frente, budapeste para a direita, veneza para a esquerda, zagreb para baixo. (…) 🙂

    Espero que estejas a gostar, Vítor.
    Cuidado com a estrada, olha smp para os dois lados.
    Um beijinho*

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