“Vida de cão”

As-Salaam Alaikum, caros leitores!

Há uns tempos comecei a reparar que, por algum motivo não se encontravam cães nas ruas dos Emirados. Via gatos, franzinos e sugados pela fome, que na maior parte dos casos têm como mama os restos que jazem nos caixotes da cidade, mas cães nem vê-los…

Carreguei esta dúvida comigo, mais uma ou duas semanitas, até que me deparei com um pormenor delicioso (literalmente), que marcou o plot point nesta indagação interior: Numa das minhas incursões aos supermercados para comprar os meus mantimentos, mais especificamente no corredor dos cereais, encontrei os tão-amados e sobejamente conhecidos CHOCAPIC. Qual não é o meu espanto quando encontro um Koala na capa em vez do meu companheiro de tantos pequeno-almoços, o Pico! Aquele cão com ar simpático e inofensivo (talvez também um pouco lunático).

Ao falar com a malta daqui, descobri que a razão de não haver cães por estas paragens se prende com crenças religiosas, uma vez que o Islão considera o cão um animal impuro. Não deixa de ser irónico, o facto de este simpático Koala se chamar “Koko”. A sonoridade deste nome, e por muito que me esforce, não me remete para a ideia de pureza…

Depois de algumas pesquisas descobri que no Alcorão, o livro sagrado para os Muçulmanos, e apesar de o profeta Maomé levantar várias leis e regras hostis à comunidade canina, não os classifica como impuros. Esta impureza, ao que percebi, advém do facto de nos centros islâmicos as matilhas de cães párias terem sido um grande foco de doenças, nomeadamente, de raiva. Apesar disso, e por acreditarem que Allah cria tudo e destrói o que achar que deve ser destruído, os juristas muçulmanos decidiram criar leis que desmotivassem quem quisesse ter um cão sem ser para usos práticos ligados ao pastoreio, caça ou à guarda, por exemplo, evitando assim substituir o seu D/deus na decisão do que deve ou não existir.

Curiosidades:

1) Se se tocar num cão (que não esteja molhado(!)) ou em algo em que ele tenha tocado, deve ser-se lavado sete vezes, sendo que uma delas tem de ser friccionando com terra antes do(s) objecto(s) em questão voltar(em) a ser utilizado(s).

2) É comum ver cães da raça Pastor Alemão nos estádios dos Emirados. As forças da ordem utilizam-nos para vigiar e garantir a segurança nos estádios do futebol.

3) A raça Saluki é considerada a mais antiga domesticada. Há registos da sua presença desde há 7000 anos, sendo que a imagem mais antiga deste cão remonta  a 5300 A.C., no Período Halaf no actual Iraque. Os Muçulmanos sempre a associaram à nobreza e à divindade e abriram uma excepção especial em relação à impureza canina aos Saluki, uma vez que não os consideram cães, mas dádivas de Allah.

Como ser humano, e mesmo filtrando a realidade com os olhos ocidentais, parece-me injusto e exagerado este comportamento com a raça canina. Mesmo que fundamentada q.b. quando foi implementada, hoje em dia já não é justificável este afastamento forçado. Pela mesma ordem de razões, para além dos cães e porcos, as moscas, mosquitos, pulgas e tantos outros animais deviam desaparecer, porque em última análise, são maus para a raça humana, na medida em que também podem transportar doenças. Mas se existem, é porque têm uma função a cumprir e um espaço a preencher, tal como nós humanos. Somos só mais uma espécie de animal num estado de evolução diferente. Acima de qualquer D/deus, que respeito e aceito, embora não acredite nas explicações e mediações humanas – enquanto não prejudique nem entre no espaço das fés alheias, ou seja utilizado (como em quase todos os casos conhecidos) como cavalo de batalha política, altifalante na uniformização de opiniões favoráveis aos poderes instituídos e como espaço para redenções pessoais quando nem sempre se age bem (de má fé) – existe a Natureza, e essa sempre se auto-regulou, nunca precisou, e cada vez mais evita, a influência humana nos seus desígnios.

Até um próximo, companheiros e companheiras!

(O cão é Pico e não Choco. Errata feita. Obrigado Nelita. Beijo ;))

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~ por pensaventosnodeserto em Outubro 31, 2008.

3 Respostas to ““Vida de cão””

  1. Vitó Vitó. Sabe-me bem ouvir-te pá! Fico é com medo de ir para aí…Acho que não duro 1 semana até ir preso. Afinal o sec. xxi ainda não é para todos. Merdinha para as religiões e um beijinho para ti *

  2. Menino Vitor: para um tão grande apreciador de Chocapic chamas o cão de Choco?! Homofona de choco que vem do mar e que tão bem nos sabe numa feijoda? Não, o nome do cão não é Choco é Pico. Mas eu perdoo-te!

    Espero que esteja tudo bem por aí nas Arábias!

    Saudações portugas!

  3. Vitinho, a minha mana (além de ter contraido uma paixoneta por ti) continua curiosa em relação aos doces, às caixas dos cereais, chocolates e afins =D é gazeada, a miuda

    Beijinho em tons de areia pk estás ai longe nesse sitio esquisito =D

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